Por Jocelem Mastrodi Salgado

 

Estudos divulgados recentemente revelaram que a terapia de reposição hormonal sintética traz mais riscos que benefícios para a saúde das mulheres. Foi um balde de água fria numa crença que vínhamos cultivando há 40 anos. A notícia só não surpreendeu pesquisadores que, como nós, estamos estudando alternativas naturais para a reposição hormonal há cerca de 20 anos.

Se a pesquisa sobre os perigos da reposição hormonal deixa a classe médica dividida e nós mulheres angustiadas, ela nos permite lançar um olhar natural e menos sintético sobre a menopausa.

Hormônios naturais extraídos de plantas podem cumprir ou complementar o papel dos hormônios sintéticos agora questionados. Nossas pesquisas indicam que alimentos à base de proteínas de soja, ricos em isoflavonas, hormônios naturais da soja, podem trazer grande benefício para as mulheres, com resultados surpreendentes e animadores.

A notícia apareceu em todos os grandes jornais e revistas e recebeu destaque nos noticiários das rádios e TVs. Caía por terra, de uma só vez, toda a esperança quase mágica depositada no uso de hormônios sintéticos. A capacidade atribuída à reposição hormonal, de nos manter jovens, sem os incômodos da menopausa e os riscos aumentados de doenças, estava agora sendo questionada.

Passados alguns dias da divulgação dessas notícias, e passado o susto que provocou em todos nós, podemos conversar mais tranquilamente sobre o significado dessas pesquisas.

Dois estudos divulgados nas últimas semanas pelo JAMA, a revista da Associação Médica Americana, alertaram para os perigos da terapia de reposição hormonal, a TRH, uma fórmula empregada por milhões de mulheres no mundo todo.

O primeiro estudo

O primeiro estudo mostrou que a combinação de estrogênio mais progesterona aumentava os riscos de doenças. Durante quase 40 anos, acreditou-se exatamente no contrário, que essa reposição hormonal reduziria nossos riscos de enfermidade e nos livraria dos efeitos desagradáveis da menopausa.

O estudo vinha testando a droga Prempro, nome comercial que corresponde no Brasil ao Premelle. A pesquisa tinha sido iniciada em 1997 e envolvia cerca de 16 mil mulheres com idades entre 50 e 79 anos, todas saudáveis. A proposta era avaliar se as terapias de reposição hormonal combinando estrogênio com progesterona de fato conseguiam reduzir os casos de câncer de mama, de osteoporose e de doenças ligadas ao coração.

A pesquisa deveria terminar em 2005, mas foi interrompida em 2002 por determinação do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos. O motivo: com base nos dados já recolhidos, os especialistas constataram que as mulheres que estavam fazendo reposição hormonal estavam correndo maior risco que aquelas que não estavam.

O estudo constatou que o emprego da TRH aumentava em 26% o risco de câncer de mama, em 29% as possibilidades de um infarto do miocárdio, em 41% as chances de um derrrame, e dobrava o perigo de uma trombose. Disparado o alarme, as autoridades americanas determinaram a interrupção da pesquisa e pediram que o alerta fosse transmitido a todas as mulheres.

O segundo estudo

O segundo estudo, divulgado na semana passda levantou polêmica da TRH realizada somente com estrogênio. O estudo avaliou mais de 44.000 mulheres menopausadas com média de idade de 56,6 anos, por um longo período. Ao final do estudo os pesquisadores concluíram que mulheres que usaram TRH com estrogênio, particularmente por 10 ou mais anos, apresentaram risco significativo de câncer de ovário.

Reposição Hormonal

A terapia de reposição hormonal se espalhou no mundo todo especialmente depois que o médico Robert Wilson lançou o livro “Feminina Para Sempre”, atribuindo à TRH a capacidade de nos manter jovens, saudáveis e bem dispostas durante toda nossa vida, mesmo com a chegada da menopausa.

Isso foi na metade dos anos 60, e durante esses 40 anos nunca houve uma concordância total sobre os benefícios dessa terapia. A maioria dos médicos nos EUA, Europa e no Brasil defende o emprego da reposição hormonal para a maioria das mulheres.

No entanto, um número significativo de mulheres vem recusando o emprego dessa terapia, preocupadas com os riscos do câncer de mama. Mesmo com o sucesso do livro “Feminina Para Sempre”, e com as grandes campanhas dos laboratórios junto aos médicos, o número de mulheres que adotam a TRH não chega a 30%.

Os médicos também estão divididos com relação a essa questão. Em um debate realizado pela “Folha de S.Paulo” no final do ano passado, do qual fui convidada a participar, alguns médicos debatedores defendiam a reposição hormonal, outros alertavam para os seus riscos e destacavam a importância das terapias alternativas.

Alternativas naturais

É nesse ponto justamente que desejo chegar. Se as notícias sobre as pesquisas com a TRH sintética são preocupantes, o momento é de olhar com mais atenção para as alternativas naturais.

Não se trata de negar os benefícios da reposição sintética, pois os medicamentos vêm se mostrando uma arma fundamental na luta do homem contra a doença. A TRH, no entanto, é uma tentativa de repor aquilo que nosso organismo naturalmente deixa de produzir com a menopausa, que são os hormônios. Mais natural, então, seria buscar na natureza algo que pudesse reduzir os sintomas dessa queda de produção hormonal.

Hoje já se sabe que os fitohormônios encontrados em diferentes plantas podem desempenhar, em escala mais amena, mas sem nenhum efeito colateral, o mesmo papel da TRH sintética. Os fitohormônios são encontrados em plantas como a Cimicifuga Racemosa, o Yam Mexicano, o Alcaçuz, a Linhaça, o Trevo Vermelho, mas sua fonte mais conhecida é a soja.

Os benefícios desse grão já foram constatados em dezenas de pesquisas que compararam as populações orientais, que comem soja diariamente, com as ocidentais, que pouco comem desse grão. A constatação principal é que a mulher oriental sofre menos os efeitos da menopausa, como as ondas de calor, tem menor incidência de câncer de mama, de osteoporose e doenças do coração.

Para todas as mulheres

Com base nessas pesquisas internacionais, eu e minha equipe na ESALQ-USP, passamos a pesquisar a soja e seus benefícios no Brasil. Foram cerca de 20 anos de estudos que nos autorizam a falar com segurança e tranquilidade sobre os benefícios desse grão.

Sabíamos de suas vantagens, e quais eram as substâncias que agiam na nossa saúde, mas o problema era de ordem prática: para obter os benefícios da soja, seria necessário consumir cerca de 150 gramas do grão por dia, uma quantidade que as ocidentais não estão habituadas a ingerir.

Foi então que, há três anos atrás, pesquisadores da FUGESP, Fundação para o Estudo da Vida Saudável e Gastroenterologia de São Paulo, convidaram a mim e minha equipe para fazer parte de um grupo de estudo com o intuito de de desenvolver uma pesquisa cujo objetivo era identificar a melhor forma de concentrar os nutrientes e componentes ativos da soja, na forma de um alimento e não cápsula.

A solução: um alimento em pó chamado Previna

O estudo culminou com a elaboração de um alimento em pó, batizado com o nome de Previna, que pode ser dissolvido em água ou sucos, e que tem a capacidade de fazer uma reposição hormonal natural. Por ser um hormônio muito menos potente que o sintético, as isoflavonas da soja presentes nesse alimento, beneficiam mulheres antes e depois da menopausa.

Ao combinar cálcio e proteínas da soja com essas isoflavonas, conseguimos um alimento que pode beneficiar a grande maioria das mulheres, uma vez que as proteínas da soja trazem benefícios para a saúde cardiovascular e o cálcio é um mineral importante para a saúde óssea.

Antes, imaginávamos que ele seria especialmente indicado para mulheres com contra indicação para TRH sintética, como aquelas com antecedentes de câncer na família. Agora, com a pesquisa norte-americana, podemos afirmar que ele é indicado a todas as mulheres.

Embora acreditemos que os resultados dessa nossa pesquisa tenha sido uma grande contribuição para a saúde da mulher, não significa que o desafio da menopausa esteja totalmente resolvido. Muitos estudos ainda estão sendo desenvolvidos, tanto do ponto de vista sintético, quanto do ponto de vista dos alimentos. Como cientistas, nossa função é ir mais além, buscar novas fórmulas para a saúde.

Como pesquisadores na área da Vida Saudável, nossa missão é buscar nos alimentos substâncias que possam melhorar nossa qualidade de vida.

Para entrar em contato com a prfª Jocelem envie seu e-mail para jmsalgad@esalq.usp.br

 

Fonte

2 thoughts on “Hormônios naturais extraídos da soja: uma alternativa para a reposição hormonal

  1. Muito bom.Obarigada pela pesquisa.Ainda não estou na menopausa,mas gostei muito destes resultados,pois vão fazer toda a diferença para as mulheres que já estão nesta fase da vida.É sempre importante manter o acompanhamento de um profissional,mas aconselho sempre questioná-lo sobre tratamentos,efeitos colaterais.Faço isso com a minha mãe.Sempre falo para ela perguntar,pois ela vai ao consultório e nunca questiona o médico.Precisamos estar alertas a toda descoberta que contribua para nossa saúde.

    Vou deixar um link que pode ajudar na hora de visitar o consultório.

    http://bit.ly/aXX1hQ

Deixe seu comentário